As igrejas e capelas da Ericeira

 

Fotografia: DR

 

Estamos no período da Páscoa, que este ano se vive de uma forma diferente devido à pandemia do novo Coronavírus – Covid-19. Após uma Quaresma de sofrimento e sacrifícios, o Domingo Pascal (em que se comemora a ressurreição de Jesus Cristo) não assinalará ainda um regresso à vida normal no seio das famílias, sejam elas cristãs ou não.

Devido às necessidades de isolamento e distância social, ao contrário do que sucede habitualmente, as reuniões e almoços não poderão ser alargados e as visitas a parentes (bem como os reencontros de amigos) terão que ficar para outra altura.

terra de gentes do mar e pescadores que desde tempos imemoriais buscam protecção divina contra os males terrenos

Mesmo a Fé em 2020 está a ser vivida de forma diferente, com muitas igrejas fechadas e as missas presenciais suspensas – ainda assim, é possível assistir por aqui às celebrações eucarísticas da Paróquia da Ericeira.

A Páscoa é um tempo já de si muito especial para os crentes, que nesta fase excepcional da vida colectiva encontram na oração um conforto e na religião uma luz de esperança ainda mais brilhante.

Com isso em mente (e também como forma de divulgar o nosso património), reunimos aqui imagens e textos relativos às várias igrejas e capelas existentes na Ericeira, terra de gentes do mar e pescadores que desde tempos imemoriais buscam protecção divina contra os males terrenos, fossem eles doenças, pobreza ou inimigos externos.


Igreja de São Pedro

A Igreja de São Pedro da Ericeira é a igreja paroquial desta vila histórica. Situada no largo com o mesmo nome, ascendeu a templo principal em 1530, época a que pertence a imagem renascentista do seu patrono, visível na porta lateral sul. A edificação, porém, está documentada desde 1446, época em que se ergue como uma pequena capela então localizada fora do núcleo da vila.

A transformação da capela em igreja começou na primeira metade do século XVII e terminou em meados de 1745. Toda a edificação está preenchida por elementos de arquitectura rococó e de figuras alusivas ao ciclo da pesca milagrosa do Apóstolo Pedro. No século XIX foi construído o coro do lado norte e o interior foi enriquecido com numerosas pinturas provenientes de conventos entretanto extintos.

Na capela baptismal adjacente à edificação conserva-se a cantaria manuelina, o elemento mais antigo deste monumento declarado Imóvel de Interesse Público em 1984. Anualmente celebra-se no adro desta igreja a festa de Nossa Senhora da Conceição (em Dezembro) e o arraial de São Pedro, nos Santos Populares de Junho.

 

Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem e de Santo António

A capela da padroeira dos pescadores jagozes encontra-se num pequeno pátio da Rua de Santo António com vista privilegiada sobre o Oceano, em pleno centro da vila, delimitando mesmo as respectivas zonas Norte e Sul.

A fundação desta capela encontra-se envolta em certo mistério, com poucos registos impressos ao longo da História. Alguns dados demonstram que será contemporânea à Igreja Paroquial (século XIV ou XV, portanto), mas não existem vestígios materiais dessa época. Em 1609 era a sede onde decorriam as reuniões da Confraria de Nossa Senhora da Boa Viagem dos Homens do Mar. Só em 1645 é que se tornou no local de culto que hoje se lhe reconhece.

A capela sofreu ao longo do tempo diversas ampliações e obras antes de se tornar no edifício que se encontra junto à praia dos Pescadores e que remonta ao século XVII. Nas portas há gravuras que assinalam o ano de 1644 como o primeiro em que foram efectuados melhoramentos; exactamente dois séculos mais tarde, em 1844, foi intervencionada a mando do último presidente do município ericeirense; no início do século XX decorreriam novas remodelações; e, finalmente, em 1993 foram restaurados a talha, a pintura e o douramento do retábulo.

 

Igreja da Misericórdia

A Igreja da Misericórdia (no nº 11 do Largo com o mesmo nome) começou a ser projectada após a Câmara da Ericeira ter doado, em 1678, a Capela do Espírito Santo a Francisco Lopes Franco. Com a ajuda dos pescadores, este membro da nobreza tomou a responsabilidade de erguer o templo que acolheu a sua sepultura, quatro anos mais tarde.

Este monumento Barroco foi concluído no século XVIII e as pinturas Visitação e Virgem da Misericórdia, visíveis no templo-museu, são da autoria de Manuel António de Góis. No arco do retábulo-mor encontra-se a imagem de Nossa Senhora do Rosário, titular da mais importante confraria da Ericeira.

A Igreja era o templo onde os irmãos da Misericórdia assistiam aos ofícios religiosos, sentados num cadeiral posicionado junto à entrada para a albergaria e o hospital, que em 1937 deram lugar ao actual Arquivo-Museu.

 

Ermida ou Capela de São Sebastião

A Capela (ou Ermida) de São Sebastião, sita no Largo com o mesmo nome, remonta aos séculos XV/XVI e encontra-se na zona Norte da vila, entre as praias do Algodio e de São Sebastião.

A actual arquitectura do monumento permite observar diferentes elementos provenientes de épocas distintas. São os casos do altar – que terá sido colocado no seu interior em 1567 a pedido de um grupo de moradores da Ericeira – e dos azulejos do século XVII que forram o interior da ermida. O espaço sofreu obras de ampliação em 1678. A confraria de S. Sebastião, constituída exclusivamente por rapazes solteiros, tinha sede na capela. Até 1968 ali estiveram as tumbas deste grupo, entretanto transferidas para a Misericórdia, juntamente com as existentes na Igreja Paroquial.

Em 2018 foi classificada pela Direcção Geral do Património Cultural como monumento de interesse público.

No final de Janeiro realizam-se aqui as Festas em Honra de S. Sebastião e S. Vicente – também conhecidos como “Festa dos Bêbados” –, em tempos a maior celebração da vila e arredores. Depois da celebração da missa, os locais visitantes juntam-se no largo da Igreja para dançar ao som de música popular, comer bolos regionais e beber um copo de vinho tinto proveniente de pipas oferecidas para o evento.

 

Capela de Santa Marta e Nossa Senhora das Necessidades

Erigida na malha urbana histórica da Ericeira, esta Capela localiza-se na periferia do Parque de Santa Marta. A construção do templo iniciou-se em 1760 e, à semelhança da capela situada junto à praia dos Pescadores, transporta consigo uma dupla designação, sendo que a primeira (Santa Marta) é a mais comum na identificação do templo.

Antes ainda de surgir a edificação que hoje conhecemos, uma primeira ermida com o mesmo nome foi erguida algures em 1484 junto às furnas e no perímetro do adtual parque recreativo. Uma lenda descrita por Frei Agostinho de Santa Maria no seu Santuário Mariano indica que a capela de Santa Marta foi fundamental para a fundação do bairro e do palácio das Necessidades, na capital lisboeta. O mito relata que uma imagem de Nossa Senhora das Necessidades, existente na ermida, foi levada por um casal de tecelões para Lisboa em 1599 e utilizada numa homónima capela edificada em Alcântara. O furto foi executado em virtude dessa imagem ser considerada milagrosa, tendo salvo o dito casal nos anos da peste. A imagem de Nossa Senhora das Necessidade terá desaparecido, porém, num incêndio que deflagrou como consequência do grande terramoto de 1755.

esta capela foi fundamental para a fundação do bairro e do palácio das Necessidades, em Lisboa

É da lenda que também advém a referência a “casa de saúde” quando se fala da Capela de Santa Marta. Curiosamente, esta ermida estaria localizada perto da nascente de águas mineromedicinais de Santa Marta, muito apreciadas no século XIX e princípios do séc. XX, mas hoje não exploradas.

Esta capela também foi sede da confraria das raparigas solteiras e ali se realizaram algumas procissões e festejos evocativos da Nossa Senhora das Necessidades. Com a integração das cerimónias no dia de São Pedro, tais celebrações acabaram por desaparecer.