A Vida Não Pára: Nuno Veríssimo Silvestre

 

Fotografia: DR

 

Nuno Veríssimo Silvestre

Médico

 

Como tem corrido o teu trabalho neste período de pandemia que atravessamos?

Pensávamos que iríamos ter um acréscimo de trabalho com um grande número de infectados, mas felizmente o país preparou-se e organizou-se de forma a poder responder aos doentes com Covid-19. Foram tomadas medidas preventivas, o que nos afastou de cenários como os de Itália ou Espanha. Uma vez que reduzimos a nossa actividade ao que era urgente e importante, tivemos uma diminuição do número de doentes e da carga de trabalho, o que parece uma antítese em tempos de pandemia. Uma outra grande diferença é o afastamento que sentimos em relação aos doentes, quer em teleconsulta, por vermos o doente num ecrã de computador, quer provocado pelos equipamentos de protecção pessoal, que formam uma barreira entre nós e o doente.

Felizmente, pelo esforço de confinamento da população, tudo indica que vamos ter capacidade de resposta para este surto

Na área da saúde os cuidados especiais adoptados durante a actividade profissional são imensos. Como tem corrido esta adaptação?

Tem corrido bem, os serviços conseguiram adaptar-se para dar resposta à pandemia, tivemos tempo para nos organizarmos e potenciarmos os sistema de saúde com uma capacidade de resposta para o aumento dos casos. Felizmente, pelo esforço de confinamento da população, tudo indica que vamos conseguir ter capacidade de resposta para este surto da pandemia.

A medicina é sempre bastante importante e ganha especial relevo nesta fase: pensas que as pessoas agora olham para a vossa profissão doutra forma?

Penso que não, as pessoas sempre respeitaram a medicina e os profissionais de saúde em geral, como os enfermeiros e técnicos, porque sempre souberam que o nosso objectivo é tratar e cuidar das pessoas. As atitudes que sempre tomámos foram para o seu bem. O papel que estamos a desempenhar nesta pandemia vai de encontro ao juramento que fizemos e quando abraçámos esta profissão já sabíamos que iríamos estar expostos a riscos, mas mesmo assim foi nossa opção seguir em frente.

sou um positivo irritante e tento ser o mais racional possível em situações de crise

Como tens vivido este período provocado pela pandemia do novo Coronavírus (Covid-19)?

Tenho vivido com algumas adaptações à minha vida pessoal, uma vez que sou uma pessoa de risco optei por me afastar de todos os meus contactos. Tive de me afastar da minha namorada, com quem vivia há bastante tempo, mantendo o contacto através de vídeochamada ou através de visitas com uma distância de 2 a 3 metros para manter a sua segurança; tive de me afastar da minha mãe e amigos. Mas eu sou um positivo irritante e tento ser o mais racional possível em situações de crise, portanto não vejo este afastamento como uma situação dramática e de solidão pessoal, vejo como um comportamento necessário e transitório que se irá resolver a curto/médio prazo. Tento não ver muita televisão porque isso só aumentará a ansiedade, que é normal numa situação desta natureza; faço exercício em casa quando não estou a trabalhar e tento responder a todos os e-mails, SMS e solicitações de doentes nesta altura, de forma a poder facilitar-lhes a vida e a evitar ao máximo as suas deslocações. Em suma, tentei adaptar a minha vida para que parecesse o mais normal possível num tempo de excepção.

As estruturas de saúde estão organizadas de forma a poderem separar os casos suspeitos de COVID-19 dos outros

Gostavas de deixar alguma mensagem para os leitores da AZUL?

Gostava de pedir às pessoas que mantivessem os esforços que têm feito até agora, para se manterem em casa, de forma a continuarmos a ter o controlo da situação que temos tido. Se tiverem de sair à rua, usem máscara e mantenham o afastamento social higienizando as mãos tantas vezes quantas for necessário.

Se tiverem doenças graves ou sintomas suspeitos de outras patologias que não estejam relacionadas com a Covid-19, não tenham receio de procurar ajuda médica e tratamento hospitalar. As estruturas de saúde estão organizadas de forma a poderem separar os casos suspeitos de Covid-19 dos outros casos, por isso o risco de se infectarem num hospital é baixo.

Um apelo que fazia aos idosos da Ericeira é que se protejam e fiquem em casa, tenho visto vários idosos a ir ver o mar ao muro da Praia dos Pescadores. Sejam pacientes, é preferível ficarem um mês sem ver o mar do que correrem risco de ficarem doentes e desenvolverem complicações da doença que sejam fatais.

Por fim, queria dizer às pessoas que melhores dias virão, vamos ultrapassar esta pandemia, vamos descobrir uma vacina para nos protegermos ou um fármaco para acabar com o vírus, vamos fazer piqueniques na Espiga do próximo ano e protegermo-nos na Espiga deste ano. Vamos ultrapassar a crise económica que poderá resultar desta pandemia e adaptarmos-nos, porque se tivermos o bem mais essencial que temos preservado, a nossa saúde, conseguiremos ultrapassar todos os outros obstáculos.

Protejam-se, porque se se protegerem a vocês vão estar a proteger os vossos filhos, pais, vizinhos amigos e toda a vossa comunidade.

Um muito obrigado a todos por manterem possível o controlo desta pandemia.