A guerra nunca acaba dentro de alguém que a viveu

 

Texto: Sérgio Miguel Santos Silva | Fotografia: AZUL

 

A guerra nunca acaba dentro de alguém que a viveu. Descobrimos isto depois da Primeira Guerra Mundial. Talvez ainda antes, mas por um lado as formas de registar as atrocidades estavam ainda pouco desenvolvidas e, por outro, a Primeira Guerra foi um matadouro. Só no dia 22 de Agosto de 1914, tinha a guerra poucos dias, morreram em combate 27.000 militares Franceses. Imaginem o que terá sido sobreviver a um dia destes: entre isso e a morte não deve ser uma escolha fácil. Dentro destes homens a guerra continuou. Continuou no dia 23 de Agosto de 1914. Mas também continuou depois de 11 de Novembro de 1918.

Durante os mais de quatro anos de guerra viriam a perder a vida onze milhões de militares, a maior parte em batalha, e outros tantos milhões de civis entre crimes de guerra, fome e doença. Para estes a guerra terminou. Dentro dos que lhe sobreviveram, a guerra continuou.

Shell Shock foi a designação atribuída aos distúrbios que os soldados trouxeram das trincheiras. Soldados que viram mais do que tinham imaginado possível, soldados que viram mais do que podiam. Trauma de combate seria um tradução muito vaga e pouco literal dessa expressão anglo-saxónica.

Vai ser sempre muito difícil encontrar os limites da miséria humana

Hoje este distúrbio da personalidade é conhecido como Perturbação de Stress Pós-Traumático. É uma doença amplamente reconhecida e considerada grave. Mas nem sempre foi assim. Pelo contrário, face ao crescimento no número de casos ao longo da guerra, o Exército Inglês proibiu o uso da expressão Shell Shock, não apenas na frente de combate, mas inclusivamente em artigos científicos. E maioritariamente estes casos foram tratados punitivamente, quer porque o esforço de guerra não permitia uma abordagem compreensiva destes traumatizados, quer como forma de mostrar exemplo aos restantes soldados.

Muitos destes traumatizados foram julgados e alguns foram mesmo executados por crimes como deserção e cobardia. Outros foram tratados com choques eléctricos ou diferentes métodos igualmente violentos e brutais. Acreditava-se que estes choques eléctricos trariam os indivíduos de volta às suas qualidades e personalidade anteriores. O médico Lewis Yealland ganhou especial reputação nestes tratamentos. Não considerava os traumas de guerra como uma doença, mas como sintomas de falta de carácter, de disciplina e de honra.

Conta-se que terá dito a um dos seus pacientes que ele nunca deixaria aquela enfermaria sem falar e andar como sempre o tinha feito e que tinha que comportar-se como o herói de guerra que o médico esperava que ele fosse. Era uma guerra dentro da guerra, feita contra algumas das suas maiores vítimas. Vai ser sempre muito difícil encontrar os limites da miséria humana.

I Guerra Mundial. - ph. whatsthatpicture

I Guerra Mundial. – ph. whatsthatpicture

Os Portugueses também estiveram nesta guerra. Enviámos 100.000 militares. Consta que nem roupa ou calçados adequados tinham para os rigorosos invernos do centro da Europa. O frio e a lama chegaram-lhes ao corpo talvez ainda mais depressa que aos restantes. Aos outros, aos mais de 7.000 que foram trespassados pelo fogo e pela doença, fizemos-lhes um memorial em pedra que não estará mais fria do que esses corpos, e deixámo-lo a meia Avenida da Liberdade de costas para o Consulado de Espanha.

Mas também aqui se morreu à fome, também aqui se morreu de doença. Estima-se que em Portugal largos milhares pessoas tenham morrido de fome e outras carências associadas à guerra e mais de quarenta mil tenham perdido a vida em consequência da Gripe Espanhola, também conhecida como Pneumónica, que assolou grande parte do planeta no ano final e seguinte à Grande Guerra. É bem sabido que um mal nunca vem só. Talvez seja por isso que nos metemos noutra.

Foi o jogo dos ochentcha y ocho minutchos que deu a Jorge Jesus mais um bom momento de YouTube

Mas permitam-me mudar de assunto por uns momentos. Durante algum tempo fui a uma barbearia da Ericeira aparar a barba. É um sítio clássico, com preceito, para homens à antiga, de barba rija, seja qual for a sua idade. Não tem nada a ver com a recente proliferação de barbearias assinaladas por barber poles e logotipos sofisticados, sobretudo nas ruas da cidade de Lisboa. A porta fica sempre aberta e, por vezes, também uma pequena janela está aberta.

A cada cinco minutos passa alguém que se acerca à porta para cumprimentar e receber de volta o cumprimento do barbeiro. Ar condicionado, não há. Se estiver calor, está calor. Se estiver frio, está frio. Enquanto se espera – e há sempre gente à espera porque barba e cabelo são coisas que nunca param de crescer e porque o serviço é excelente – fala-se sobretudo de futebol. O Sporting ocupa uma boa parte das conversas. Porque o barbeiro é do Sporting e porque o Sporting dá sempre muitos motivos para falar.

Numa dessas vezes em que lá estive era precisamente esse o assunto. O Sporting tinha perdido na véspera em Madrid por 2-1, depois de ter passado grande parte da partida em vantagem contra o Real Madrid. Foi o jogo dos “ochentcha y ocho minutchos” que deu a Jorge Jesus mais um bom momento de YouTube. Mas no que respeita a futebol, não tinha sido um grande momento. Jesus tinha, como noutras vezes, quase ganho, e era convicção geral que a culpa era sua.

Se não tivesse vindo um anjo Gabriel, não teriam existido milagres de Jesus

Tinha mexido mal na equipa, ou tinha esperado demasiado para mexer na equipa, ou não tinha mexido na equipa. Eu não tinha visto o jogo e por isso não me lembro bem qual destes tinha sido o problema. Certo é que os sportinguistas estavam zangados com Jorge Jesus, assim como eu já tinha estado no passado por derrotas parecidas. Agora que ganhou a Copa Libertadores já ninguém se lembra que Jesus é, ou era, pé frio, e que tem, ou tinha, uma tendência muito acentuada para falhar em momentos decisivos.

Talvez essa tendência tenha chegado ao fim, até porque a vitória tardia contra o River Plate, a mais importante da sua carreira, caiu do céu, completamente contra a corrente do jogo. E, se já existe todo o tipo de piadas e trocadilhos com o nome Jesus, aqui vai mais um. Se não tivesse vindo um anjo Gabriel para fazer algo completamente inesperado, não teriam existido milagres de Jesus. Ao cuidado dos próximos directores desportivos de Jorge Jesus.

No entanto, o que interessa é que essa manhã havia na barbearia alguém especialmente inconsolável. Estava desolado. Sabia que não existem muitas oportunidades de triunfar no Santiago Barnabéu e que o seu clube tinha perdido uma das melhores. “É pá, não me conformo, aquilo ontem deixou-me muito em baixo”. O barbeiro, que estava ele próprio bastante desiludido, dizia-lhe enquanto continuava a cortar barba e cabelo, que era “só um jogo”, “só bola”, também não era preciso ficar assim. Mas o homem lamentou-se antes de cortar o cabelo, enquanto cortava o cabelo, e já depois de ter o cabelo bem aparado.

Não devia ter muito para fazer, pensei. Era um homem de meia idade, talvez pelos sessenta, talvez reformado. Talvez desempregado, de férias ou de folga. Na verdade, não fazia ideia. Eu parecia ser a única pessoa naquela barbearia que não o conhecia.

Ainda estávamos a falar do jogo e dos dramáticos minutos finais quando alguém, em jeito de brincadeira, perguntou se ele ainda sonhava com o crocodilo. “É pá…”, disse ele num tom ainda mais pesaroso e dorido do que até ali, “nem me fales disso”. Se era eu o único que não o conhecia, havia pelo menos mais alguém que não conhecia aquela história que tinha crocodilos em sonhos. Mas não eram só pesadelos, nem eram apenas crocodilos. “Que história é essa do crocodilo?”, perguntou um dos clientes.

Era uma história de estranha e ácida ironia

O que se seguiu foi mais ou menos o relato, mais ou menos interrompido por perguntas, mais ou menos completado pelas respostas, de modo nem sempre linear, de um dos últimos dias que passou na Guerra Colonial. Já não me lembro onde tinha estado. Penso que era na Guiné, mas como tenho familiares que combateram na Guiné, posso estar a confundir. Era uma história de estranha e ácida ironia.

Para um grupo de homens eram os últimos dias de guerra. Regressariam a casa em breve. Foi com este ambiente de descompressão, de alívio e, quem sabe, de algum optimismo, que aqueles homens foram tomar um banho de lago naquela tarde exposta não ao fogo inimigo, mas ao violento sol africano. Um banho contra o suor dos corpos e do pó que se lhe apega. Contra todo o desconforto que advém disso e de estar em terra estranha a milhares de quilómetros de casa há demasiados meses ou anos. Contra as aflições e violências passadas durante esse tempo. Contra as mazelas, contra as feridas, contra as mutilações, contra as mortes.

Havia de ser só um momento de tranquilidade – alguns soldados deitar-se-iam depois a secar ao sol, talvez a ler um livro, ou a falar dos planos futuros no regresso à vida normal -, ou de alegria – outros ficariam na água demorando-se em brincadeiras quase adolescentes. Foi seguramente isso que aconteceu, por momentos. Depois toda a cena se desfez quando alguns homens foram atacados. Os que puderam fugiram, mas um deles foi estraçalhado nos dentes de um crocodilo e não regressou do lago com vida.

quando se vê alguém a ser engolido à nossa frente por um animal selvagem, essa imagem não desaparece com facilidade

O homem, que agora contava esta história numa barbearia da Ericeira, era um dos que estavam no lago, um dos que estavam próximos do soldado que teve menos sorte. Sobreviveu a um ataque de crocodilo, mas quando se vê alguém a ser engolido à nossa frente por um animal selvagem, essa imagem não desaparece com facilidade.

Alguns dir-me-ão que foi um acidente, que não teve directamente a ver com a guerra. Alguma razão terão, já que os crocodilos não atacam apenas entre uma declaração de guerra e as assinaturas de um acordo de paz. Muitas pessoas já terão morrido desta forma. No entanto, a probabilidade daquele homem que agora contava a história e dos outros que o acompanhavam estarem naquele local remoto, no meio da selva, num lago com crocodilos, sem ser por terem sido mobilizados para a defesa dos interesses de um Estado, seria muito baixa.

Contou depois que nos últimos anos estava melhor, mas durante muito tempo tinha dificuldade para adormecer e que, de vez em quando, ainda tinha pesadelos com aquele episódio. Não surpreende. Tinha trazido outra guerra para casa.

Milhares de guerras voltaram dentro destes homens, sob formas diferentes, de vários tamanhos. Alguns deixaram membros num continente que queríamos manter europeu à força. Outros trouxeram Distúrbios de Stresse Pós-traumático. Os outros, os que tiveram mais azar, voltaram para a terra, no sentido mais literal que a expressão tem. Fizemos-lhes um memorial, em pedra não mais fria do que esses corpos que voltaram em caixas, e deixámo-lo de costas para o rio por onde partiram para a realidade que os havia de matar.

Quanto mais forem os interesses de um homem, mais oportunidades ele terá para ser feliz

Diz-se que o futebol é o ópio do povo, numa variação de uma frase de Karl Marx que substitui a palavra religião pela palavra futebol. Talvez seja parcialmente verdade. O futebol entusiasma, o futebol contagia, o futebol distrai. Mas é a conotação negativa da frase que me desagrada. Bertrand Russell, matemático e filósofo, escreveu na década de 30 do século XX, sobre a forma de atingir a felicidade e os motivos da infelicidade. “A Conquista da Felicidade” é ainda hoje um dos livros mais lúcidos, úteis e pragmáticos que se poderá ler sobre este tema sobrepopulado de falsos profetas e charlatães. No meio deste livro, o filósofo refere-se ao futebol nestes termos que podem dizer-se elogiosos:

«O homem que aprecia assistir a jogos de futebol é em certa medida superior àquele que não aprecia. Aquele que aprecia a leitura é ainda superior ao que não aprecia a leitura, dado que existem mais oportunidades para ler do que para ver um jogo de futebol. Quanto mais forem os interesses de um homem, mais oportunidades ele terá para ser feliz.»

Parece-me uma análise correcta, se tirarmos a parte em que nos dias que correm, não faltam oportunidades para assistir a um jogo de futebol. Todos precisamos de interesses e distracções, por menores que sejam os nossos problemas. Quem os tenha maiores, precisa ainda mais dessas distracções.

Os homens que viveram isto estão nas barbearias, nos cafés, nos supermercados, nos hospitais

No final daquela história eu percebi melhor a obsessão daquele homem com o jogo da noite anterior. Ao contrário do que diz Bertrand Russell, não foi uma coisa que lhe tivesse trazido qualquer felicidade. Mas era agora claro para mim que mais valia passar a manhã a remoer esse jogo do que passar uma vida a deixar-se atormentar pelas coisas que realmente doem, por um crocodilo que lhe levou um amigo e que quase lhe acabava com todas as guerras.

Como este caso, há muitos. É só substituir os crocodilos por material bélico. Os homens que viveram isto estão nas barbearias, nos cafés, nos supermercados, nos hospitais. Estão nas nossas casas. São nossos pais, nossos tios, nossos avós. São milhares que voltaram com uma coisa terrível que não tinham levado. Quando acabou, metemos uma pedra sobre o assunto, não essa literal dos memoriais, mas quase tão efectiva. Não falamos muito sobre isto, nem agora nem antes. É um assunto triste por todos os motivos.

Sabemos, mas seguimos e esquecemos, nós os que não fomos. Mas como disse no início, a guerra nunca acaba para quem a viveu. E só ocasionalmente somos relembrados disto. Foi o que me aconteceu nesse dia, na barbearia da Ericeira, na manhã seguinte ao Sporting ter perdido com o Real Madrid.