A arte marcial dos surfistas

Icon Jiu-Jitsu Team Ericeira. - ph. Mauro Mota

 

Texto: Ricardo Miguel Vieira | Fotografia: Mauro Mota

 

Na nublada tarde de 27 de Setembro, Zé Marcello está defronte uma turma que o mira nos olhos com uma concentração inquebrável. O grupo composto por 14 homens está alinhado na horizontal, como um pelotão militar, e de costas para as portas envidraçadas que delimitam a sala da Academia Icon Jiu-Jitsu da Ericeira. Lá fora vêem-se os miúdos entusiasmados com as subidas e descidas que protagonizam nas rampas do skate park da Boardriders Quiksilver Ericeira, onde a academia se estabeleceu em Janeiro. De fora para dentro nada se ouve, a não ser a voz de comando de Zé. “Muito bem pessoal, vamos começar com um aquecimento ligeiro para depois darmos início a mais um treino. “Hayh!”… “HAYH!”

kiai – habitual grito das artes marciais antes de um combate – expressa-se universalmente, porque a expressão não varia de língua para língua. Mas o grupo não era de todo homogéneo: havia holandeses, belgas, suíços, britânicos, brasileiros. Todos eles vieram de fora para participar no Ericeira BJJ Camp, um evento de três dias exclusivo a membros da equipa de Icon Jiu-Jitsu Team, liderada por Zé Marcello. “Já tinha feito camps em Barcelona e Biarritz, França, e como eu estava aqui muitos me pediram para fazer em Portugal”, explicou o brasileiro natural de Niterói, Rio de Janeiro. O encontro pretende reunir um conjunto de pessoas não só para treinar e trocar experiências na arte da luta, mas também para conhecerem o lugar e surfarem. “A cultura da Ericeira conjuga-se com o jiu-jitsu por causa da qualidade de vida, o surf e a natureza”, sublinhou o campeão mundial da modalidade em 1997.

A Academia de Jiu-Jitsu da Ericeira surgiu por influência de um projecto criado em 2008 em Hossegor, sudoeste de França, pelas marcas Quiksilver e a Moskova. À época já existia um espaço semelhante ao da Boardriders Ericeira na costa francesa, e a Quiksilver acabou por apostar na criação de uma academia de jiu-jitsu. Quando o líder da academia francesa passou por Portugal, há dois anos, por altura do Campeonato Europeu, conversou com Zé Marcello sobre a possibilidade de criar o mesmo projecto na Ericeira. Zé, então a viver com a família no Reino Unido, não hesitou e poucos anos depois passou a dirigir a academia da vila piscatória. “Eu já tinha a ideia de ir morar para junto da praia para surfar e ter uma melhor qualidade de vida”, conta o instrutor de 42 anos. “A Ericeira tem tudo isso.”

 

A cultura da Ericeira conjuga-se com o jiu-jitsu por causa da qualidade de vida, o surf e a natureza.

O aquecimento dura há quase dez minutos. Os alunos, espalhados pelos duros tapetes pretos e vestidos com o habitual quimono – de cor branca, azul ou negra – rodam o pescoço, esticam os ombros, flectem as pernas e alongam o tronco. Um músculo adormecido pode ditar uma ida ao hospital. O pior vem a seguir: uma série imparável de 150 abdominais e 30 flexões. Há rostos que se comprimem de dor, outros que parecem habituados a este estilo de vida. “[O jiu-jitsu] disciplina a ter uma vida saudável. Acabas por te cuidar melhor, comer melhor, dormir melhor devido ao que treinas aqui”, garante Zé.

Diz o treinador brasileiro que é esta disciplina que liga o surf e o jiu-jitsu, até porque partilham o conceito de estilo de vida, e não tanto de desporto. Diversos atletas que correm o circuito mundial – como Tiago Pires ou Jeremy Flores – complementam o rasgar das ondas com uma boa dose de combate mano-a-mano. “O jiu-jitsu ajuda na componente da concentração dentro de água. Se te apanhas numa situação de levar com um set na cabeça, vais estar mais preparado para te safares de um situação difícil”, explica Zé Marcello, que exemplifica com um lutador que se encontra numa situação desfavorável e dependendo de si mesmo para se safar. Para além disso, explica que um praticante de jiu-jitsu tem um maior auto-controlo, reduzindo a confrontação física com o próximo. “Depois de eu ter entrado no jiu-jitsu, acalmei, porque ganhei consciência do que posso fazer. E acho que as pessoas acabam por te respeitar mais”, sublinha.

Nenhum dos praticantes encara o adversário como um alvo a abater. O ego não se sobrepõe e a boa disposição contagia o grupo. Aqui e ali ouve-se o burburinho das conversas. Estão a decidir o que fazer depois de mais um exigente treino. Zé Marcello chega-se à frente: “Devíamos encontrar um lugar para comer. Uma pizzaria era o ideal, que dizem?” As faces ganham brilho, os pescoços movimentam-se para a frente e para trás, em aprovação. Afinal, o jiu-jitsu não pretende deixar ninguém no tapete.

Jiu-jitsu é um jogo de estratégia física que não é tão violento quanto aparenta. - ph. Mauro Mota

O Jiu-jitsu é um jogo de estratégia física menos violento do que aparenta.